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L excessive



Escuta

Toda vez que escuto: 'eu te odeio', tem um sabor novo.

Ninguém diz isso assim, quando sente.

Ei, é bem pior que num curral!

Está na cara?

E quando não tem cara, está no corpo?

E quando não tem corpo? Hare, hare! Parece daquele jeito da televisão, mais rápido que os olhos, ilegal, tiro secreto, murro subliminar.

A imagem resiste, é bem pior que num curral.

Não precisa me explicar porquê a menina foi deixada com o pescoço ferido. E manchada de roxo. E se portava como um cachorro, e mordia, e espumava, e porque gritou para a mulher que repetia -  'O sangue de Jesus tem poder!' : 'cala a boca, sangue de Jesus é a puta que o pariu, cala a boca, me deixa em paz!'

O lugar era pequeno, sabe? Mas tinha muito alimento e boa parte da família estava presa ali, inclusive o irmão de seis anos, apavorado com a hipótese de a mãe decidir tornar-se heroína para nada.

E sua cena toda que quer se dizer contemporânea, bordada de celular, de e-mails, de virtuamorfose, só tem serventia pra me lembrar disso.

Era um triste como você: decidiu colocar um 38 na têmpora daquela virgem. Ela tinha que pagar o preço dos perversos, da tripa dos desconhecidos, das invasões bárbaras, da inclemência estúpida e repetitiva: ah, deixo rastros rituais, fofa!  

E o tal de você (ou de um outro, ou de tantos iguais) sentiu ódio porque alguma coisa ali, que tem um cheiro e tanto, é inquebrantável.

É? Sal grosso onde, querido? Ah, era mais uma...

Antes que sem trincas, que já passei de colagem a partitura, eu, monstro do pictórico, do escandinavo, dos crimes de fogo, das fotos rasgadas, das caixas pretas do inominável, antes, antes de doendo, eu olho você.

Eu - principalmente - olho você.

Só quebra o que tem ossos, o que tem vidro.

E eu morreria antes de você. E eu poderia entregar meu coração para que a criança fosse feliz. E eu seria a carnação da vida se tornando vida, húmus, o que, caríssimo (caro heim?), você não vai mais querer conhecer.

Afinal, excessiva. Sorte de quem não fere.

Estou na faca que te atravessa, mas sou seu único remédio.

Ostensivamente olho.

E você não entende porque isso te faz mal.

Você odeia.

Parte o espelho. Por isso o sangue na ponta dos dedos, aquele que você lavava no hotel de luxo.

Reparte meus membros entre os seus e diz que é melhor se afastarem, que sabe o que está dizendo, que trabalha com gente assim e que já basta.

Sim, basta.

Você me odeia.E me entrega todos os seus medos, e não se dá conta.

Quanto a mim, as manchas não saem. Só da sua vista prejudicada. Aquela lógica simplista (agora sua) de que basta que goze, que chupe, que escorra.

Estou viva.

Adianto: não sou melancólica.

Você não pode me matar.

Já tentaram antes, como estou dizendo.

E a película que adere está indisponível para nós dois.

Parece graça?

O tempo nos confere os melhores diagnósticos.



Escrito por izabel xarru às 18h23
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